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   ANTONIO MACHADO
 

BC sugere satisfazer-se com inflação em torno de 6%, na ausência de novos riscos na área externa

 

Ação anti-inflacionária será levada sem sobressaltos, considerando os fatores que a enrijecem aos poucos e os riscos da atividade no mundo

18/10/2013 - 03:08 - Antonio Machado
 

 O sentimento do Banco Central transmitido na ata da reunião em que o seu Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic a 9,5% ao ano manteve o tom moderado em relação à inflação visto no documento anterior, mas não o suficiente para ultimar o ciclo de alta da taxa de juro básica. O mercado estava ansioso, já que em alguns círculos se especula que a Selic de dois dígitos teria veto político.

 O mais provável é que o BC encerre o calendário de 2013 do Copom, dia 27 de novembro, com a Selic em 10% e mantenha a expectativa dos próximos passos da política monetária em stand-by até a primeira reunião de 2014, em 15 de janeiro. Até lá, o IBGE terá divulgado a taxa de inflação de 2013, que pode influenciar a campanha eleitoral que se avizinha. O desejo do governo é que fique abaixo da variação de 2012, 5,8%, balanceada com o aumento da gasolina até dezembro.

 Em números arredondados, se a inflação em 12 meses girar em torno de 6% entre este ano e o próximo, com o déficit em conta corrente financiado com o fluxo regular de capitais externos, ou seja, sem o BC ter de recorrer à reserva de divisas, não se prevê nenhuma ação mais restritiva para conter a demanda. A presidente Dilma Rousseff já tem tratado de se precaver, ao incorporar aos seus discursos a afirmação de que a inflação está controlada e “dentro da meta”.

 Não é assim, e ela sabe disso. O Conselho Monetário Nacional, que elabora o plano de voo do BC, definiu a meta em 4,5%, a mesma desde 2005 e também até 2015, com margem de 2 pontos percentuais para ser acionada somente em casos excepcionais - um choque de oferta, por exemplo, com o risco de desalinhar as relações de preços.

 Dilma alargou o conceito para evitar críticas e, sobretudo, para o BC não ser forçado a subir juros além do que tem feito e a Fazenda, a cortar, sem sofisma, o gasto fiscal. Trata-se do meio para trazer a inflação à meta, digamos, num prazo de 12 meses, com a sequela de desacelerar ainda mais o já lento crescimento da economia.

 O ritmo do crescimento preocupa não por ser baixo, 0,9% em 2012 e previsto entre 2,3% e 2,5% este ano, mas porque quanto mais lento o nível da atividade econômica menor a arrecadação tributária com a qual o governo sustenta as suas políticas, sobretudo as sociais.

Cobra-se o que é raro

 O discurso da crítica escorre fácil, mas as contingências com que os governantes se defrontam no poder determinam o espaço possível de suas realizações. O que se cobra são ações que tipificam o que se chama de “estadista”, capaz de construir uma coesão reformista a despeito dos ônus e da contrariedade dos interesses prejudicados.

 Isso é muito raro. Na última grande ruptura econômica, que foi a reforma monetária contra a inflação endêmica, não se fez o ajuste fiscal que teria minimizado o papel do câmbio semifixo e apreciado.

 E o presidente Fernando Henrique não teria empurrado a depreciação cambial corretiva para depois da eleição que o reelegeu, com o país já sem reservas e com um programa de emergência do FMI e do Tesouro dos EUA na gaveta. Com a corda cambial esticada, o segundo mandato começou com uma maxidesvalorização. E o governo cambaleou até 2002.

Cortar? Quem? O quê?

 Os tombos dos que vieram antes não diminuem a responsabilidade dos que vêm na sequência. Servem de alerta e de experiência. Mas também são causos para serem lembrados e situarem o contexto de cada parte no sobe-desce da inflação.

 Muitos reclamam o auxílio da disciplina fiscal no controle da inflação. Num quadro de expansionismo fiscal, que tem sido a norma desde a República Velha, só há o BC, os juros, o crédito e o papel coadjuvante do câmbio relativamente apreciado como muro de contenção da corrida inflacionária. E o gasto público?

 É fácil falar. Muitos pedem menos gastos, ninguém ousa dizer o que cortar. Aliás, certa vez sugeri ao presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que contratasse alguns sábios para destrinchar o orçamento e dizer onde economizar. Ele gostou da ideia. Os sábios não se habilitaram.

Roupa nova virá depois

 A ação anti-inflacionária será conduzida pelo BC sem sobressaltos, conforme já tem feito, considerando os riscos da atividade global (e foi raspando que o mundo se safou da insolvência dos EUA forçada pela doidice da oposição radical a Barack Obama) - condicionante do ritmo do crescimento econômico -, e os fatores que vão enrijecendo aos poucos a inflação. Neste ambiente, sem um novo overshooting do câmbio, a inflação deve continuar vestindo o figurino do BC.

 Roupa nova, atendidos estes termos, só para depois da eleição, e, obviamente, sujeita à qualidade da futura Legislatura e dos quadros que o governo eleito recrutar. Mais que isso, só se for acidente.

BC e Fazenda no palco

 O enredo de paciência sugerido pelo BC pode não agradar a muitos, mas certamente é mais elegante que o da Fazenda, ao procurar fazer o mesmo com a operação das contas fiscais. A economia orçamentária, chamada de superávit primário, está para a Fazenda tal como a Selic para o BC. Ambas têm um objetivo maior e alguns acessórios.

 Para a Selic, é a inflação, e, subsidiariamente no presente, atrair hot money para fechar o déficit em conta corrente (o que aprecia o real). Para o superávit, é o curso cadente da dívida do Tesouro em relação ao PIB, o que serve para administrar a demanda (e é assim que age complementarmente à Selic no controle da inflação).

 BC e Fazenda em algum momento foram molestados em seus papéis. O BC, ao parecer manietado pela política. A Fazenda, ao operar o que ficou conhecido por “contabilidade criativa” para fazer superávit. O BC aos poucos vem se reencontrando. A Fazenda ainda divaga.


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